Para a nossa turma que está presa aos textos de Rubem Braga, aqui vai uma entrevista dele e alguns comentários analíticos sobre seu trabalho como Cronista.
O Programa Entrelinhas, da Rede Cultura aborda sua vida de modo informal, mas em um programa rico de informação, citações e curiosidades.
sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014
terça-feira, 4 de fevereiro de 2014
Aula de Inglês - Rubem Braga
Aula de Inglês - Rubem
Braga
-- Is this an elephant?
Minha tendência imediata foi responder que não; mas a gente não deve se deixar levar pelo primeiro impulso. Um rápido olhar que lancei à professora bastou para ver que ela falava com seriedade, e tinha o ar de quem propõe um grave problema. Em vista
disso, examinei com a maior atenção o objeto que ela me apresentava.
Não tinha nenhuma tromba visível, de onde uma pessoa leviana poderia concluir às pressas que não se tratava de um elefante. Mas se tirarmos a tromba a um elefante, nem por isso deixa ele de ser um elefante; mesmo que morra em conseqüência da brutal operação, continua a ser um elefante; continua, pois um elefante morto é, em princípio, tão elefante como qualquer outro. Refletindo nisso, lembrei-me de averiguar se aquilo tinha quatro patas, quatro grossas patas, como costumam ter os elefantes. Não tinha. Tampouco consegui descobrir o pequeno rabo que caracteriza o grande animal e que, às vêzes, como já notei em um circo, ele costuma abanar com uma graça infantil.
Terminadas as minhas observações, voltei-me para a professora e disse convincentemente:
-- No, it's not!
Ela soltou um pequeno suspiro, satisfeita: a demora de minha resposta a havia deixado apreensiva. Imediatamente perguntou:
-- Is it a book?
quais forem. Aquilo não era um livro, e mesmo supondo que houvesse livros encadernados em louça, aquilo não seria um deles: não parecia de modo algum um livro. Minha resposta demorou no máximo dois segundos:
-- No, it's not!
Tive o prazer de vê-la novamente satisfeita -- mas só por alguns segundos. Aquela mulher era um desses espíritos insaciáveis que estão sempre a se propor questões, e se
debruçam com uma curiosidade aflita sobre a natureza das coisas.
-- Is it a handkerchief?
Fiquei muito perturbado com essa pergunta. Para dizer a verdade, não sabia o que poderia ser um handkerchief; talvez fosse hipoteca... Não, hipoteca não. Por que haveria de ser hipoteca? Handkerchief! Era uma palavra sem a menor sombra de dúvida antipática; talvez fosse chefe de serviço ou relógio de pulso ou ainda, e muito provavelmente, enxaqueca. Fosse como fosse, respondi impávido:
-- No, it's not!
Minhas palavras soaram alto, com certa violência, pois me repugnava admitir que aquilo ou qualquer outra coisa nos meus arredores pudesse ser um handkerchief.
Ela então voltou a fazer uma pergunta. Desta vez, porém, a pergunta foi precedida de um certo olhar em que havia uma luz de malícia, uma espécie de insinuação, um longínquo toque de desafio. Sua voz era mais lenta que das outras vêzes; não sou completamente ignorante em psicologia feminina, e antes dela abrir a boca eu já tinha a certeza de que se tratava de uma palavra decisiva.
-- Is it an ash-tray?
Uma grande alegria me inundou a alma. Em primeiro lugar porque eu sei o que é um ash-tray: um ash-tray é um cinzeiro. Em segundo lugar porque, fitando o objeto que ela me apresentava, notei uma extraordinária semelhança entre ele e um
ash-tray. Era um objeto de louça de forma oval, com cerca de 13 centímetros de comprimento.
As bordas eram da altura aproximada de um centímetro, e nelas havia reentrâncias curvas -- duas ou três -- na parte superior. Na depressão central, uma espécie de bacia
delimitada por essas bordas, havia um pequeno pedaço de cigarro fumado (uma bagana) e, aqui e ali, cinzas esparsas, além de um palito de fósforos já riscado. Respondi:
-- Yes!
O que sucedeu então foi indescritível. A boa senhora teve o rosto completamente iluminado por onda de alegria; os olhos brilhavam -- vitória! vitória! -- e um largo sorriso desabrochou rapidamente nos lábios havia pouco franzidos pela meditação triste e inquieta. Ergueu-se um pouco da cadeira e não se pôde impedir de estender o braço e me bater no ombro, ao mesmo tempo que exclamava, muito excitada:
-- Very well! Very well!
Sou um homem de natural tímido, e ainda mais no lidar com mulheres. A efusão com que ela festejava minha vitória me perturbou; tive um susto, senti vergonha e muito orgulho.
Retirei-me imensamente satisfeito daquela primeira aula; andei na rua com passo firme e ao ver, na vitrine de uma loja,alguns belos cachimbos inglêses, tive mesmo a tentação de comprar um. Certamente teria entabulado uma longa conversação com o
embaixador britânico, se o encontrasse naquele momento. Eu tiraria o cachimbo da boca e lhe diria:
-- It's not an ash-tray!
E ele na certa ficaria muito satisfeito por ver que eu sabia falar inglês, pois deve ser sempre agradável a um embaixador ver que sua língua natal começa a ser versada pelas pessoas de boa-fé do país junto a cujo governo é acreditado.
Maio, 1945
A crônica acima foi extraída do livro "Um pé de milho", Editora do Autor - Rio de Janeiro, 1964
domingo, 2 de fevereiro de 2014
Cordilheira - Rubem Braga
CORDILHEIRA
Rubem Braga
Desde agosto não caía uma gota de chuva em Santiago. Ainda bem que nas
torneiras – oh, leitor carioca, meu semelhante e meu irmão! – a água é
abundante e limpa, e jorra à vontade para que à tardinha todo honesto cidadão
possa regar suas plantas. Só na Inglaterra há gramados como no Chile, tão
verdes, tão macios, tão perfeitos e lindos; o chileno trata o capim como se
fossem flores.
Numa tarde vagabunda de sábado andei passeando pelo parque Balmaceda, cheio de
árvores, crianças, flores e namorados. Não é proibido, felizmente, pisar na
grama. É proibido colher flores e jogar bola, mas isso representa mais uma
opinião das placas da Prefeitura que uma realidade humana. Aqui e ali três
meninos jogam bola e uma garota colhe flores sem que o guarda, por esse motivo,
perca seu bom humor. Também já fumei duas vezes no ônibus, ignorando o aviso, e
ninguém me chamou a atenção; Chile, graças a Deus, é um bom país latino.
É difícil contar esse lado da paisagem,
esse alto horizonte, essa imensa muralha azul toucada de neve que brilha ao
sol. Quando o sol vai morrendo do outro lado do horizonte, a Cordilheira começa
a mudar de cor – a Montanha se faz violeta, a neve às vezes tem reflexos
púrpuros ou róseos, o azul do céu vai se fazendo mais grave no crepúsculo alto
e solene.
Santiago não tem mar; mas tem, a leste, essa presença de abismo e de infinito,
essa paisagem de estranha força, pureza e paz – de uma oceânica beleza.
Santiago, abril, 1955.
quinta-feira, 30 de janeiro de 2014
Rubem Braga e Graciliano Ramos - Vidas Secas a Crônica
Othon Bastos lê Rubem Braga
Um cronista memorável, Rubem Braga escrevia textos analíticos sobre a obra de seus amigos.
O que não seria novidade alguma, uma vez que escreveu mais de 15 mil crônicas, algumas destas seriam mesmo sobre seu cotidiano com escritores e poetas, seus amigos e, em um de seus livro de Crônicas,ele escreve um artigo sobre Vidas Secas e Graciliano Ramos. O Instituto Moreira Salles convidou Othon Bastos para fazer uma Leitura e estamos postando ela aqui...
Um cronista memorável, Rubem Braga escrevia textos analíticos sobre a obra de seus amigos.
O que não seria novidade alguma, uma vez que escreveu mais de 15 mil crônicas, algumas destas seriam mesmo sobre seu cotidiano com escritores e poetas, seus amigos e, em um de seus livro de Crônicas,ele escreve um artigo sobre Vidas Secas e Graciliano Ramos. O Instituto Moreira Salles convidou Othon Bastos para fazer uma Leitura e estamos postando ela aqui...
domingo, 26 de janeiro de 2014
A Corretora de Mar - Rubem Braga
A corretora de mar
Rubem
Braga
A mulher
entrou no meu escritório com um sorriso muito amável e olhos muito azuis.
Desenrolou
um mapa e começou a falar com uma certa velocidade, como é uso dos chilenos.
Gosto de ver mapas, e me ergui para olhar aquele.
Os olhos
azuis fixaram-se nos meus, a mão extraiu de uma pasta a fotografia de um
terreno plantado de pinheirinhos de dois ou três anos: não se tratava de
especulação imobiliária; dentro de poucos anos eu seria um madeireiro, poderia
cortar meus pinheiros... Ponderei que tenho uma pena imensa de cortar árvores.
- A
senhora não tem?
Também
tinha. E então baixou a voz, sombreou os olhos de poesia, e me disse que ela
mesma, corretora, também comprara duas parcelas naquele terreno. E tinha
certeza - confessava – que também não tinha coragem de mandar cortar seus
pinheiros; também adorava árvores e passarinhos, cortaria apenas os pinheiros
necessários para fazer uma casinha de madeira: o lugar é lindo, em um pequeno
planalto, dá para uns penedos junto ao mar; as árvores choram e cantam com
as ondas
quando sopra o vento do oceano...
Confesso
que paguei a primeira prestação: ela passou o recibo, sorriu, me disse muchas
gracias e hasta lueguito e partiu com seus olhos azuis, me deixando
meio tonto, com a vaga impressão de ter comprado um pedaço do Oceano Pacífico.
domingo, 19 de janeiro de 2014
100 anos de Rubem Braga - A Feira - A Crônica
Uma gostosa homenagem...
A escritora Ana Maria Machado fala sobre sua amizade com Rubem Braga e sobre a personalidade do Sabiá da Crônica.
Amizade que se iniciou quando ela ainda era menina, estudante de uma Escola de meninas, que costumava ler e recortar as Crônicas de Rubem.
Ela nos conta de como ele era calado e, apesar de se aproximar dela, não falava tanto.
O carinho do escritor para com a manina Ana fez com que ela trouxesse para a vida lembranças especiais a ele relacionadas, como o dia em que ele lhe trouxe uma flor, que comprara na Feira da qual fala em um de seus textos.
Aqui ela fala de forma muito rica sobre a Intertextualidade pelo ponto de vista de Bakhtin, onde a Polifonia conversa de um texto para outro. A escritora aborda que suas leituras anteriores se fixaram em sua obra, isto a ponto de ela falar sobre um mesmo tema, mas de outra forma e usar elementos pela mesma importância biológica - beija-flor (tema dela) e pavão (tema de rubem Braga) - para criar textos diferentes. Muito interessante isto.
O Vídeo é maravilhoso. Vale muito a pena assistir. Assistam e logo e leiam A Feira. Uma dica e um tchau.
Abraços
Elis
A Feira - Rubem Braga
Passa gente vindo da feira. Agora temos uma feira aqui perto de casa. Para mim apenas movimenta a esquina, com tantas empregadas e donas-de-casa carregadas de sacos e cestas de frutas, verduras e legumes. Ao poeta Drummond, que mora mais além, a feira deve incomodar, porque os grandes caminhões roncam sob a sua janela, e o vozerio dos mercadores e fregueses perturba o seu sono matinal.
O que não tem a menor importância: na atual situação do mundo é bom que os poetas estejam vigilantes. Quanto aos cronistas, que eles durmam em paz; é melhor que se recolham e se esqueçam de fazer a crônica destes dias, em que não há nenhum exemplo nem lição. O poeta é mais adequado para ouvir as exclamações patéticas (“os tomates estão pela hora da morte”) e tomar o pulso dos fatos concretos da mercancia local. Além disso deve subir até a sua janela a fragrância das verduras e de todas essas coisas nascidas na terra, ainda frescas e vivas, coloridas. É bom que ele veja as quinquilharias ingênuas, as ervas misteriosas, as pequenas inúteis e preciosas coisas do mar e do sertão, os cavalos-marinhos e as sementes escuras. Só ele poderá entender as coisas de barro e de palha, a glória dos tomates, o espanto de pedra no olho dos peixes eviscerados, e o constrangimento amarelo desses abacaxis sem sabor que amadurecem no meio do inverno.
Passa um homem careca, sério; deve um velho funcionário, e tem o ar de quem discute muito nas feiras, capaz de citar o preço dos pepinos em 1921 e de lamentar, como prova de decadência espiritual do Ocidente, o atual tamanho das bananas. Sim, eram maiores as bananas de antanho. A acreditar nele as bananas-da-terra dos tempos coloniais mediam toesas. Em todo caso, não parece ir muito triste; carrega dois sacos verdes e de um deles sai o pedaço de uma abóbora. Gosta de abóboras, o birbante.
“Não, senhora; só em doce, assim mesmo misturado com doce de coco” – respondeu aquele menino àquela dramática pergunta de sua velha tia sobre se gostava de abóbora. Essa resposta foi, na época, muito comentada como grave prova de insolência e talvez desagregação moral. Não era. Era uma prova de tolerância, boa vontade, anseio de compreensão; porque a vida é terrível é que o menino não gostava mesmo de abóbora e achava que o único defeito do doce de coco era conter, às vezes, por costume de família, um pouco de abóbora. Estava, entretanto, disposto a superar as próprias convicções em benefício do bem-estar geral. Tinha pudor de que pensassem que ele odiava abóbora; era uma criança no fundo delicada, embora tenha resultado em um homem com freqüência estúpido.
A feira, não sei por quê, me leva a essas divagações infantis; vagueio com suave emoção entre cebolas de brilho metálico e couves e alfaces líricas.
Há uma grata surpresa. A mais bela, esquiva e elegante senhora da rua está pessoalmente na feira. Veio sem pintura, um vestido leve, sandálias coloridas. Demoro-me em ver sua pele, seus cabelos, seus olhos, sobre um fundo de couves e beterrabas. Sua pele tem uma frescura vegetal. Suas mãos finas seguram os legumes com um experiente carinho. Quando vai para casa, um menino conduz suas compras. Ela, porém, fez questão de levar nas mãos, como sinal de alegria e de simplicidade, uma grande couve-flor.
Assinar:
Comentários (Atom)