A corretora de mar
Rubem
Braga
A mulher
entrou no meu escritório com um sorriso muito amável e olhos muito azuis.
Desenrolou
um mapa e começou a falar com uma certa velocidade, como é uso dos chilenos.
Gosto de ver mapas, e me ergui para olhar aquele.
Os olhos
azuis fixaram-se nos meus, a mão extraiu de uma pasta a fotografia de um
terreno plantado de pinheirinhos de dois ou três anos: não se tratava de
especulação imobiliária; dentro de poucos anos eu seria um madeireiro, poderia
cortar meus pinheiros... Ponderei que tenho uma pena imensa de cortar árvores.
- A
senhora não tem?
Também
tinha. E então baixou a voz, sombreou os olhos de poesia, e me disse que ela
mesma, corretora, também comprara duas parcelas naquele terreno. E tinha
certeza - confessava – que também não tinha coragem de mandar cortar seus
pinheiros; também adorava árvores e passarinhos, cortaria apenas os pinheiros
necessários para fazer uma casinha de madeira: o lugar é lindo, em um pequeno
planalto, dá para uns penedos junto ao mar; as árvores choram e cantam com
as ondas
quando sopra o vento do oceano...
Confesso
que paguei a primeira prestação: ela passou o recibo, sorriu, me disse muchas
gracias e hasta lueguito e partiu com seus olhos azuis, me deixando
meio tonto, com a vaga impressão de ter comprado um pedaço do Oceano Pacífico.
Muito bom gostei
ResponderExcluir