CORDILHEIRA
Rubem Braga
Desde agosto não caía uma gota de chuva em Santiago. Ainda bem que nas
torneiras – oh, leitor carioca, meu semelhante e meu irmão! – a água é
abundante e limpa, e jorra à vontade para que à tardinha todo honesto cidadão
possa regar suas plantas. Só na Inglaterra há gramados como no Chile, tão
verdes, tão macios, tão perfeitos e lindos; o chileno trata o capim como se
fossem flores.
Numa tarde vagabunda de sábado andei passeando pelo parque Balmaceda, cheio de
árvores, crianças, flores e namorados. Não é proibido, felizmente, pisar na
grama. É proibido colher flores e jogar bola, mas isso representa mais uma
opinião das placas da Prefeitura que uma realidade humana. Aqui e ali três
meninos jogam bola e uma garota colhe flores sem que o guarda, por esse motivo,
perca seu bom humor. Também já fumei duas vezes no ônibus, ignorando o aviso, e
ninguém me chamou a atenção; Chile, graças a Deus, é um bom país latino.
É difícil contar esse lado da paisagem,
esse alto horizonte, essa imensa muralha azul toucada de neve que brilha ao
sol. Quando o sol vai morrendo do outro lado do horizonte, a Cordilheira começa
a mudar de cor – a Montanha se faz violeta, a neve às vezes tem reflexos
púrpuros ou róseos, o azul do céu vai se fazendo mais grave no crepúsculo alto
e solene.
Santiago não tem mar; mas tem, a leste, essa presença de abismo e de infinito,
essa paisagem de estranha força, pureza e paz – de uma oceânica beleza.
Santiago, abril, 1955.
Eu tinha 12 anos quando li esse texto que até hoje fala em mim. Só hoje, aos 60 anos, vou conhecer Santiago e ver de perto essa obra de Arte da natureza, tão bem descrita por Rubem Braga, e que me faz encantar até hoje.
ResponderExcluir