quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Rubem Braga e Graciliano Ramos - Vidas Secas a Crônica

Othon Bastos lê Rubem Braga
Um cronista memorável, Rubem Braga escrevia textos analíticos sobre a obra de seus amigos.
O que não seria novidade alguma, uma vez que escreveu mais de 15 mil crônicas, algumas destas seriam mesmo sobre seu cotidiano com escritores e poetas, seus amigos e, em um de seus  livro de Crônicas,ele escreve um artigo sobre Vidas Secas e Graciliano Ramos. O Instituto Moreira Salles convidou Othon Bastos para fazer uma Leitura e estamos postando ela aqui...

domingo, 26 de janeiro de 2014

A Corretora de Mar - Rubem Braga




 A corretora de mar                                                                                                                       Rubem Braga
A mulher entrou no meu escritório com um sorriso muito amável e olhos muito azuis.
Desenrolou um mapa e começou a falar com uma certa velocidade, como é uso dos chilenos. Gosto de ver mapas, e me ergui para olhar aquele.
Quando percebi que se tratava de um loteamento, e a mulher queria me vender uma parcela, me coloquei na defensiva; disse que no momento suspendi meus negócios imobiliários, e até estava pensando em vender meus imensos territórios no Brasil; que além disso o Chile é um país muito estreito  e sua terra deveria ser dividida entre seu povo; até ficaria mal a um estrangeiro querer especular com um trecho da faja angosta, que é como os chilenos chamam sua tira estreita de terra, que por sinal costumam dizer que é “larguíssima”, para assombro do brasileiro recém-chegado, que não sabe que isso em castelhano quer dizer “compridíssima”.
Os olhos azuis fixaram-se nos meus, a mão extraiu de uma pasta a fotografia de um terreno plantado de pinheirinhos de dois ou três anos: não se tratava de especulação imobiliária; dentro de poucos anos eu seria um madeireiro, poderia cortar meus pinheiros... Ponderei que tenho uma pena imensa de cortar árvores.
- A senhora não tem?
Também tinha. E então baixou a voz, sombreou os olhos de poesia, e me disse que ela mesma, corretora, também comprara duas parcelas naquele terreno. E tinha certeza - confessava – que também não tinha coragem de mandar cortar seus pinheiros; também adorava árvores e passarinhos, cortaria apenas os pinheiros necessários para fazer uma casinha de madeira: o lugar é lindo, em um pequeno planalto, dá para uns penedos junto ao mar; as árvores choram e cantam com
as ondas quando sopra o vento do oceano...
 

Confesso que paguei a primeira prestação: ela passou o recibo, sorriu, me disse muchas gracias e hasta lueguito e partiu com seus olhos azuis, me deixando meio tonto, com a vaga impressão de ter comprado um pedaço do Oceano Pacífico.

BRAGA, Rubem. Ai de ti, Copacabana. Rio de Janeiro: Record, 1987

domingo, 19 de janeiro de 2014

100 anos de Rubem Braga - A Feira - A Crônica




Uma gostosa homenagem...
A escritora Ana Maria Machado fala sobre sua amizade com Rubem Braga e sobre a personalidade do Sabiá da Crônica.
Amizade que se iniciou quando ela ainda era menina, estudante de uma Escola de meninas, que costumava ler e recortar as Crônicas de Rubem.
Ela nos conta de como ele era calado e, apesar de se aproximar dela, não falava tanto.
O carinho do escritor para com a manina Ana fez com que ela trouxesse para a vida lembranças especiais a ele relacionadas, como o dia em que ele lhe trouxe uma flor, que comprara na Feira da qual fala em um de seus textos.
Aqui ela fala de forma muito rica sobre a Intertextualidade pelo ponto de vista de Bakhtin, onde a Polifonia conversa de um texto para outro. A escritora aborda que suas leituras anteriores se fixaram em sua obra, isto a ponto de ela falar sobre um mesmo tema, mas de outra forma e usar elementos pela mesma importância biológica - beija-flor (tema dela) e pavão (tema de rubem Braga) - para criar textos diferentes. Muito interessante isto.
O Vídeo é maravilhoso. Vale muito a pena assistir. Assistam e logo e leiam A Feira. Uma dica e um tchau.
Abraços
Elis





A Feira - Rubem Braga 

Passa gente vindo da feira. Agora temos uma feira aqui perto de casa. Para mim apenas movimenta a esquina, com tantas empregadas e donas-de-casa carregadas de sacos e cestas de frutas, verduras e legumes. Ao poeta Drummond, que mora mais além, a feira deve incomodar, porque os grandes caminhões roncam sob a sua janela, e o vozerio dos mercadores e fregueses perturba o seu sono matinal.
O que não tem a menor importância: na atual situação do mundo é bom que os poetas estejam vigilantes. Quanto aos cronistas, que eles durmam em paz; é melhor que se recolham e se esqueçam de fazer a crônica destes dias, em que não há nenhum exemplo nem lição. O poeta é mais adequado para ouvir as exclamações patéticas (“os tomates estão pela hora da morte”) e tomar o pulso dos fatos concretos da mercancia local. Além disso deve subir até a sua janela a fragrância das verduras e de todas essas coisas nascidas na terra, ainda frescas e vivas, coloridas. É bom que ele veja as quinquilharias ingênuas, as ervas misteriosas, as pequenas inúteis e preciosas coisas do mar e do sertão, os cavalos-marinhos e as sementes escuras. Só ele poderá entender as coisas de barro e de palha, a glória dos tomates, o espanto de pedra no olho dos peixes eviscerados, e o constrangimento amarelo desses abacaxis sem sabor que amadurecem no meio do inverno.
Passa um homem careca, sério; deve um velho funcionário, e tem o ar de quem discute muito nas feiras, capaz de citar o preço dos pepinos em 1921 e de lamentar, como prova de decadência espiritual do Ocidente, o atual tamanho das bananas. Sim, eram maiores as bananas de antanho. A acreditar nele as bananas-da-terra dos tempos coloniais mediam toesas. Em todo caso, não parece ir muito triste; carrega dois sacos verdes e de um deles sai o pedaço de uma abóbora. Gosta de abóboras, o birbante.
“Não, senhora; só em doce, assim mesmo misturado com doce de coco” – respondeu aquele menino àquela dramática pergunta de sua velha tia sobre se gostava de abóbora. Essa resposta foi, na época, muito comentada como grave prova de insolência e talvez desagregação moral. Não era. Era uma prova de tolerância, boa vontade, anseio de compreensão; porque a vida é terrível é que o menino não gostava mesmo de abóbora e achava que o único defeito do doce de coco era conter, às vezes, por costume de família, um pouco de abóbora. Estava, entretanto, disposto a superar as próprias convicções em benefício do bem-estar geral. Tinha pudor de que pensassem que ele odiava abóbora; era uma criança no fundo delicada, embora tenha resultado em um homem com freqüência estúpido.
A feira, não sei por quê, me leva a essas divagações infantis; vagueio com suave emoção entre cebolas de brilho metálico e couves e alfaces líricas.
Há uma grata surpresa. A mais bela, esquiva e elegante senhora da rua está pessoalmente na feira. Veio sem pintura, um vestido leve, sandálias coloridas. Demoro-me em ver sua pele, seus cabelos, seus olhos, sobre um fundo de couves e beterrabas. Sua pele tem uma frescura vegetal. Suas mãos finas seguram os legumes com um experiente carinho. Quando vai para casa, um menino conduz suas compras. Ela, porém, fez questão de levar nas mãos, como sinal de alegria e de simplicidade, uma grande couve-flor.